Papa Francisco e o catecumenato para noivos. Uma novidade na Igreja?

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Papa Francisco e o catecumenato para noivos. No final do mês de Janeiro, em audiência com os membros do Tribunal Eclesiástico da Rota Romana (o tribunal superior da Igreja), o Papa Francisco comentou da necessidade de se promover um catecumenato matrimonial para os noivos, e ainda detalhou que “seria um itinerário indispensável para que jovens e casais revivam a sua consciência cristã amparada pela graça dos dois sacramentos: batismo e matrimônio”. (1)

As palavras itinerário (sinônimo de percurso) e catecumenato (sinônimo de catequese) nos remetem a um percurso de formação dos noivos, algo que não se faz de um dia para o outro. Diante do costume de se ofertar uma preparação para o matrimônio resumida em algumas horas de palestras ou partilhas condensadas em poucos dias, a proposta do Papa chamou a atenção da mídia que repercutiu a notícia. Alguns, pouco informados,  até tentaram especular como seria esse catecumenato.

Não se surpreenda, mas o Papa não disse nenhuma novidade, apenas renovou uma proposta de décadas, que anda adormecida, desconhecida ou até mesmo rejeitada.

Voltando 50 anos, em 1968, no documento de Medellin, os bispos latino-americanos já recomendavam que, “a fim de que os sacramentos alimentem e fortaleçam a fé na situação atual da América Latina, aconselha-se o estabelecimento, planificação e intensificação de uma pastoral sacramental comunitária mediante preparações sérias, graduais e adequadas para o batismo (os pais e padrinhos) , confirmação, primeira eucaristia e matrimônio.”(Item 3.d.2, Conclusões de Medellin).

Em 1978, o Documento número 12 da CNBB  já falava em Preparação Remota e Próxima e que esta não se pode reduzir a um curto período antes da celebração e faz uma clara recomendação:  “O ideal é que essa preparação se estenda por um tempo razoável, acompanhando os períodos do namoro e principalmente do noivado, durante os quais se empreguem os múltiplos e variados meios para atender aos diversos aspectos que ela inclui. […] Menos formal que o “curso de noivos”, esse catecumenato pode ser realizado nas casas, acompanhando cada casal de noivos ou agrupando vários” (Parágrafo 2.4, Documento 12 CNBB).

Três anos à frente, em 1981, o Papa São João Paulo II publicava a Familiaris Consortio, detalhando que a preparação possui as etapas Remota, Próxima e Imediata.  Aliás, é no parágrafo 66 desta exortação que surge o termo catequese para se referir à preparação próxima para o matrimônio, como foi utilizado agora pelo Papa Francisco. Mas, ao olhar para o Brasil, é incômodo perceber que a etapa Remota existe timidamente de modo tácito, mas quase inexistente quando se pensa em algo estruturado nas dioceses e que a etapa Próxima possui uma estrutura que inviabiliza a adequada etapa Imediata. Mas a preparação para o matrimônio que deveria ser um processo contínuo e com três etapas nítidas, se instalou e se cristalizou como se fosse somente uma, a Próxima. E esta etapa Próxima acontece, ainda em muitas dioceses, resumida a um curso de fim de semana ou mesmo de algumas horas. E não é isso que a Igreja espera daqueles que se dedicam à preparação dos noivos.

No ano de 1996, também no pontificado de São João Paulo II, foi publicado pelo Pontifício Conselho para a Família um documento totalmente voltado à este tema, a começar pelo título: Preparação para o Sacramento do Matrimônio. Documento extenso e que detalha as três etapas da preparação e diz, literalmente, que esse catecumenato para noivos em sua etapa próxima deve ser feito de “encontros frequentes, num clima de diálogo, de amizade, de oração, com a participação de pastores e de catequistas.” (Parágrafo 37, PSM). Diz ainda que os cursos “não sejam de tal modo breve que se reduzam a uma simples formalidade”(Parágrafo 48).

Em 2007, o documento de Aparecida no parágrafo 437, pede a ação de “renovar a preparação remota e próxima para o sacramento do matrimônio e da vida familiar com itinerários pedagógicos de fé”( 437.c).

Também o Papa Bento XVI comentou sobre o tema por diversas vezes. Recomendou, por exemplo, o “acompanhamento de casais exemplares de esposos cristãos, o diálogo de casal e de grupo e um clima de amizade e oração.”(2)

O Papa Francisco também vem falando do tema por repetidas vezes. Na Amoris Laetitia, publicada em 2016, recomenda que  “a preparação dos que já formalizaram o noivado, quando a comunidade paroquial consegue acompanhá-los com bom período de antecipação, deve dar-lhes também a possibilidade de individuar incompatibilidades e riscos.” (AL209)

Muito mais poderia ser citado, mas acredito que não há dúvidas sobre o que a Igreja recomenda quando se fala em preparação para o matrimônio. Infelizmente, há quem não acredite na proposta e garanta não ser possível devido à várias situações da vida atual. Eu, contudo, acredito que a Igreja não nos recomenda nada impossível e a realização depende de nossa adesão e esforço. Então, diante de tantas recomendações, é tempo de aproveitar este belo impulso do Papa Francisco para replanejar o trabalho pastoral. E quem ganha é a família, que mais do que nunca, necessita de todo o nosso esforço.

Para ajudar nessa jornada, a Comissão Nacional da Pastoral Familiar e o Inapaf - Instituto Nacional da Pastoral Familiar e da Família estão publicando subsídios atualizados e detalhados. Acompanhe os lançamentos pela loja virtual www.lojacnpf.org.br.

(1) http://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-01/papa-francisco-audiencia-tribunal-rota-romana.html

(2) https://goo.gl/WbQC1r

André Parreira

Diocese de São João del-Rei - MG, membro da Assessoria
Pedagógica da Comissão Nacional da Pastoral Familiar

Revista Digital

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